quinta-feira, 9 de agosto de 2012

no mundo por que luto nasço



Preciso ser um outro
para ser eu mesmo.

Sou grão de rocha
Sou o vento que a desgasta.

Sou pólen sem insecto
Sou areia sustentando
o sexo das árvores.

Existo onde me desconheço
aguardando pelo meu passado
ansiando a esperança do futuro.

No mundo que combato morro
no mundo por que luto nasço.~

Mia Couto 

terça-feira, 7 de agosto de 2012

No fim do verão

No fim do verão as crianças voltam, correm no molhe, correm no vento.
Tive medo que não voltassem.
Porque as crianças às vezes não regressam.
Não se sabe porquê mas também elas morrem.
Elas, frutos solares: laranjas, romãs, dióspiros.
Sumarentas no Outono.
A que vive dentro de mim também voltou;
continua a correr nos meus dias.
Sinto os seus olhos rirem;
seus olhos pequenos brilhar como pregos cromados.
Sinto os seus dedos cantar como a chuva.
A criança voltou. Corre no vento.

Eugénio de Andrade, "Sal da Língua"
Porto, Fundação Eugénio de Andrade.

sexta-feira, 3 de agosto de 2012

Em nossos corações (poesia)

                  

"...Mas quando o amor se torna em paixão verdadeira, 
Puro como uma hóstia erguida sobre o altar, 
Quando um amor domina uma existência inteira 
Como a Lua domina os vagalhões do mar; 
Quando é o amor radiante, esplêndido, que arvora 
Em nossos corações um pavilhão d'aurora
Desdobrado no azul, quando é o amor profundo,
Um amor que nos veste uma rija armadura
Para se atravessar a batalha do mundo,
Como um leão atravessa uma floresta escura; 
Então adoro o amor, de joelhos, como adora
No topo da montanha um índio o Sol doirado,
Porque um amor candente é uma hóstia d'aurora
E o peito que o encerra é um sacrário estrelado!"

Poema: Guerra Junqueiro, in 'A Musa em Férias'



quinta-feira, 2 de agosto de 2012

AMAR É ASSIM

Amar é assim. 
É transformar o tempo que não existe em eternidade que persiste. 
É fogo que arde sem se ver, é gelo que não quer derreter, é água que corre para chover. 
Amar é assim. 
É subir uma montanha descalço sem medo de pisar pedra ou vidro, é mergulhar no oceano sem botija de oxigénio, é subir ao céu sem asas. 
Amar é assim. 
É perpetuar na eternidade o amor jovem, aquele que não tem idade, é olhar e sorrir, é abraçar e sentir, é morrer depois de viver. 
Amar é assim. 
É dizer o quanto te amo agora e sonhar com o quanto te vou amar depois de cada sorriso, é não esquecer o que vivemos mas ficar louco com o que desejamos viver. 
Amar é assim. 
É desejar frutos do nosso fruto, é perceber que viver é muito melhor que morrer, mas que morrer depois de viver significará sempre que valeu a pena amar sem medo de te perder. 
Amar é assim.

Texto: Paulo Costa
https://www.facebook.com/AldeiasPortugal

terça-feira, 10 de julho de 2012

DO TEMPO. NO AGORA!

""   Recuo no tempo a passo lento, dentro do espaço em que me encontro.
Recuo no tempo a passo acelerado, dentro do que sou.
Neste estágio absorvo o valor das coisas e a importância que para mim têm.
Aprecio as vivências da história por mim vivida.
Retrocedo no tempo sem parar em lugar algum, saudando, saudosamente, cada canto outrora meu.
Aproximo-me do ponto em que parti de mim para lugares que não foram meus, mas que me pertencem por direito à vida que de mim nasceu.
O tempo que foi meu, cruzou-se com o tempo, no tempo em que fiz desse tempo, ventre dos delicados frutos meus.
Por um tempo deixei num cantinho, esquecidos e adormecidos, os sonhos, os ideais, arquivados em lugar recôndito de um jardim florido, ameno e perfumado.

Encontrei o momento em que me encontro no ponto de partida a que me recolhi no dia em que te conheci.
Tu, que foste o instante que foi urgente viver, para dar sentido ao destino, à vida tua e minha.
O terceiro ser devolveu-me ao tempo em que renasci, transportou-me de volta ao lugar em que fiquei retida. Agora recupero o que é meu por direito, recupero a vida que é minha, recupero o tempo que perdi, o tempo que ganhei no tempo em que aprendi, o tempo em que cresci, junto com quem nasci e a quem fiz crescer.
A alvura do tempo que vivo é imprescindível para a compreensão do tempo.
Do movimento crescente na quietude deste meu fado que a ventura acalenta.

Do tempo. No agora!
 

Edite Pinheiro 

Jul, 08 / 2012 ""
  

quarta-feira, 4 de julho de 2012

Hoje estou assim

Chega um dia ou uma hora em que precisamos mesmo deitar fora coisas que nos atrapalham os pensamentos. Sejam elas preocupações do dia a dia, sejam aqueles pequenos nadas que vamos adiando e nunca mais resolvemos, seja aquilo que queremos dizer a alguém e achamos sempre que não é o momento oportuno, ou mesmo a raiva que acumulamos por quem partilha connosco o local de trabalho!
Acontece-me muito ficar ansiosa se não consigo fazer o que tenho na ideia, e começo a perder aquela euforia (se é que assim se  lhe pode chamar) do momento em que pensei e que achei que era o momento certo. Parece que algo dentro de mim esmorece e me tira a vontade, apesar de a minha consciência estar sempre a bater-me dizendo: olha!... faz!... tens que fazer!... tens que ir!... vai!... e não sai do meu pensamento.
Em tempos costumava comentar (desabafar) com a colega que sai à mesma hora que eu, mas acabei por evitar até sair quando ela, porque a nossa conversa transformava-se sempre numa espécie de reacção afirmativa da parte dela, que quase me convencia de que de algumas coisas estavam mal porque eu devia fazer assim e tal ... e devia obrigar os outros a fazer também ... porque nós devemos pensar primeiro em nós e só depois nos outros (ainda que sejam nossos filhos). Aquela situação transformava o meu desabafo em frustração.
Procurando encontrar alguém das minhas actuais relações que eu entenda servir de contentor das minhas mágoas, cheguei à conclusão de que mais vale estar calada, que quando o meu saco estiver muito cheio ele vai acabar por deitar fora, o que eu espero não aconteça porque aí as coisas pioram. 
Percorro com o pensamento, as amizades que  fiz e se desfizeram ao longo da vida, aquelas que se foram mantendo mas não correspondem às minhas expectativas, penso nos irmãos e nas primas, das mais próximas às mais afastadas, aquelas que tinha na infância e aquelas que só conheci mais tarde, e não encontro um portão florido que me acaricie à chegada, e cujo perfume das flores eu possa levar à saída.


quinta-feira, 28 de junho de 2012





Encontrei hoje em ruas, separadamente, dois amigos meus que se haviam zangado. Cada um me contou a narrativa de por que se haviam zangado. Cada um me disse a verdade. Cada um me contou as suas razões. Ambos tinham razão. Ambos tinham toda a razão. Não era que um via uma coisa e outro outra, ou um via um lado das coisas e outro um lado diferente. Não: cada um via as coisas exactamente como se haviam passado, cada um as via com um critério idêntico ao do outro. Mas cada um via uma coisa diferente, e cada um portanto, tinha razão. 
Fiquei confuso desta dupla existência da verdade.
Fernando Pessoa